Contemporaneidade: Preço pago ao Destino, credor do Tempo. Deparei-me, sem estranhamento algum além de uma contemplação silenciosa, com a frase acima ao me pegar pensando nos porquês sobre o Raptor ter "acontecido" e caminhos tão diversos se terem interligado para seguir numa mesma trilha. Baseado na cidade de Ubá, interior de Minas Gerais, o Raptor é uma banda formada em meados de 2003, fruto da cisão de outros projetos de ordens diversas na música, no teatro e até mesmo nas artes gráficas e literárias. Contando em suas fileiras com Vinnie Bressandt nos vocais, egresso de um sem número de bandas, tais como Global Shit, Angels of Death, Frei Jão, Primeiro de Abril, Kontrataq, Shampoo de Frango e ainda em atividade segurando as vozes d'Os Bonecos de Papel e do 80ptation; Jocélio na guitarra, somando a pegada nervosa do thrash metal oitentista ao som do grupo, herança dos tempos em que integrava o Executor e o Crossfire nos idos dos 90; e, por fim, Toninho Lisboa, a inventiva cozinha do trio, imprimindo ao Raptor sua batida característica, forjada em aço, legado de quando ainda era membro do Angels of Death, do Plasmodium, do Skaryos, do Incidência e do Primeiro de Abril. É ainda hoje o homem que comanda as baquetas do Prossex e do 80ptation. Como o histórico do trio atesta, a cena em Ubá é prolífica no que concerne à música e, não raro, shows locais abarcam gêneros díspares como o punk, o heavy metal e o reggae, todos convivendo em harmonia. Tradição e respaldo no cenário musical nacional e mundial também são constantes do inventário musical ubaense, visto que a cidade é berço da iconoclastia do imortal Ary Barroso, dono da canção mais gravada em todo o mundo: Aquarela do Brasil. E é justamente para honrar um passado de tamanha glória e celebrar a musicalidade inerente a esta terra que creio terem se cruzado tão distintos caminhos pelas mãos do destino. O tempo apenas cuidou por emoldurar o som, adaptando-o aos nossos caóticos dias, em uma espécie de upgrade que reflete a realidade e as tendências musicais hodiernas. O thrash vigoroso perpetrado a princípio cedeu lugar a um som mais cadenciado, porém sem nunca fazer concessões a sonoridades mais fáceis e sem abrir mão do peso e de um amálgama raro entre o feeling e o emprego de um esmerado trabalho nos arranjos. Os vocais, impregnados de melodia, evidenciam nuances ora escondidas sob o peso das faixas de seu primeiro EP, o CD demo Soulplunderers, com o qual buscam propagar a causa de seu heavy metal: o equilíbrio entre peso descomunal e sofisticação, ruído e melodia, vida e morte, chegadas e partidas. Uma harmonia para além das fronteiras da música. Vinnie Bressandt |