ENTREVISTA / Sepulcro (Marcelo e Sheila)
por Yuri d'Ávila
Há cerca de 15 anos devastando no cenário metal extremo mineiro a banda Sepulcro, uma das precursoras do black e death metal no Brasil, nos conta um pouco sobre a estrada e os ocorridos na cena juizdeforana
 
1 - O Sepulcro, todos sabemos que é uma banda conceituada e bastante conhecida, além de uma das precursoras na cena metal extrema tanto de Juiz de Fora como no Brasil todo. Conte-nos como começou a banda Sepulcro.
Marcelo: A banda foi formada em abril de 1990, originalmente por Gerisson(G), Wesley(B), Sérgio(V), Márcio(D) e eu, Marcelo(G). Passamos por muitas dificuldades, desde problemas financeiros até com as constantes mudanças na formação do Sepulcro, problemas que a maioria das bandas envolvidas com o underground passam e com a gente não foi diferente. Nossa proposta, desde o início sempre foi fazer um som mórbido, agressivo, entretanto ao longo dos anos o Sepulcro foi sofrendo uma mudança natural de evolução, devido a inclusão dos teclados em nosso som, às várias formações pela qual a banda passou, fazendo com que o som se tornasse mais sinistro, com uma necessidade maior de reflexão no ouvinte. A banda atualmente conta com Gerisson (G/V), Marcelo (G), Márcio (B), Sheila (K) e Eduardo (D).
Sheila: Com todas essas mudanças, é importante dizer que o Sepulcro procura sempre manter a sua essência, seguindo uma linha própria.
 
2 - Me parece que vocês passaram por algumas trocas de formação nestes quase 15 anos de estrada, além de praticarem mais black metal do que death metal hoje em dia. Fale-nos um pouco sobre estas mudanças.
Marcelo: Curtimos METAL, puro e direto. Vivemos os anos oitenta, e temos muita influência dessa época tão gloriosa para o meio Underground, por isso preferimos não rotular o som da banda como death, black, etc... Isso deixamos a critério do ouvinte, pois em nosso trabalho pode se ver variações de tudo que ouvimos e gostamos. Nas letras procuramos abordar temas relativos a guerras, e fatos ocorridos com o homem dentro de sua primitividade. É claro que a sonoridade da banda sofre várias influências musicais que caracterizam por sua melodia bandas de black metal, pois ouvimos muitas bandas européias, como Rotting Christ, Varathron, Bathory, porém nos dedicamos a fazer metal simplesmente, puro e direto, como já disse.
Sheila: Durante todos estes anos, um dos maiores problemas para a banda sempre foi a constante mudança na formação o que em alguns momentos nos fizeram perder algumas oportunidades. Não podemos dizer que praticamos death metal, pois temos alguns elementos na sonoridade da banda que nos aproxima do black metal, mas é só isso, como o Marcelo já disse. Tiramos nossas letras do presente e passado da humanidade, que é uma fonte de inspirações sombrias. Contamos fatos da humanidade, conflitos do ser como a morte, por exemplo.
 
3 - Gostaria de saber mais sobre o CD Funeral. Como e onde foi gravado e quais as facilidades e dificuldades para se produzir este material?
Marcelo: Gravamos e masterizamos as duas faixas, Sacred Judgement e Proverb of Death, no estúdio Nave em 16 canais, aqui em Juiz de Fora, em 2001. A música "Master of Cruelty" também foi gravada no Nave, porém em 2000, com o propósito de participar de uma coletânea que havíamos sido convidados, a "The Winds of a New Millennium – Act III", lançada pela Demise e que foi divulgada em diversos países.
Sheila: Decidimos, então em mãos desses 3 sons, fazer um CD- DEMO, que lançamos em 2001, juntamente com o resgate da primeira demo de 92, "Paradise of Spirits". Posso dizer que a grande facilidade, hoje em dia, é a quantidade de estúdios de qualidade que encontramos, o que era raro em outros tempos.
Marcelo: Já o alto custo para se produzir esse trabalho de qualidade é a grande dificuldade. Pois não possuímos qualquer apoio financeiro e temos que tirar do próprio bolso grana para bancarmos desde a gravação até a produção total do CD. Entretanto, todo o reconhecimento que obtemos durante todos esses anos de luta dos irmãos da cena underground nos motiva a continuarmos na batalha pelo apoio de um selo.
 
4 - Como tem sido a repercussão e distribuição do CD Funeral, tem tido boa divulgação e aceitação do público?
Marcelo: O "Funeral" tem sido muito bem aceito. Tivemos críticas positivas em diversas resenhas de zines e revistas especializadas. Continuamos sua divulgação, porém temos planos para gravarmos um novo material, que esperamos em breve concretizar.
 
5 - Vocês tem previsão do lançamento de um CD ou possuem algum contrato com gravadoras?
Marcelo: Nossa maior batalha nos últimos anos é justamente um selo, pois por onde nos apresentamos e nas correspondências que recebemos somos muito cobrados por um material oficial, mas sabemos de todas as dificuldades para que isso aconteça. Estamos e sempre estaremos nesta luta, pois acreditamos no potencial da banda e que poderemos garantir as expectativas do selo.
Sheila: Temos alguns sons prontos e estamos compondo músicas novas para um novo CD demo que esperamos em breve lançar. Não temos nenhum contrato com gravadoras. Já recebemos alguns convites para gravação, porém não foi possível a concretização, devido ao fator financeiro, o nosso maior problema.
 
6 - Como vocês vêem a cena metal juizforana e mineira? Estabeleça uma relação com as cenas do resto do país.
Marcelo: Minas Gerais lançou inúmeros nomes reconhecidos mundialmente na cena, sendo num passado bem recente, berço e referência do metal mundial; e acho isso muito bom, pois as bandas mineiras continuam com alta qualidade, e digo mais, a qualidade das bandas nacionais, no geral, estão de igual a superior às bandas gringas. Merecendo, as nossas bandas, todo o respeito e reconhecimento de todos os que curtem a verdadeira essência do Underground. Sobre Juiz de Fora, posso dizer que tenho muito boas recordações de grandes eventos e grandes bandas que por aqui passaram. Mas deixando de lado o saudosismo, atualmente, aqui encontramos um potencial inesgotável, em todos os estilos, bandas que esbanjam talento e garra. Só faltam mais locais para as mesmas poderem se apresentar. Hoje temos uma casa excelente, com uma boa estrutura, porém muito grande, o que leva a termos a necessidade de um local menor e central para que o Underground possa ser celebrado mais constantemente como o antigo DCE.
Sheila: Atualmente, a cena juizforana tenta renascer com força com a ajuda de alguns guerreiros, que tentam divulgar a verdadeira essência do espírito underground, porém, ainda, surgem alguns que tentam disseminar a desunião fazendo intrigas, o que ignoramos e seguimos adiante, apoiando os verdadeiros guerreiros na cena extrema.
Marcelo: A cidade também possui alguns zines verdadeiramente metais como o Dark Gates, o Atitude, Dark Lyrics, Metal Pesado, o próprio Metal Hordes, Metal Devastation, assim como algumas bandas que engrandecem a cena juizforana.
 
7 - O que vocês acharam do 1º Nocturnal Hordes Devastation, festival extremo que vocês participaram em Juiz de Fora e que contou com 9 bandas, entre elas 6 paulistas?
Sheila: Foi uma grande celebração, o que serviu para honrar a cena extrema da cidade. Infelizmente, não compareceu o público esperado, porém os que realmente importam não deixaram de apoiar este show.
Marcelo: Realmente o evento foi muito bom, em se tratando de estrutura e também das bandas, embora o público tenha se restringido a verdadeiros admiradores do estilo mais extremo. Foi um inesquecível evento para cena juizforana.
 
8 - Vocês já haviam tocado ou tem agendado algum evento deste porte? Já tocaram em outros estados ou fora do Brasil?
Marcelo: Em 1994 participamos do Juiz de Fora Rock Festival no Parque de Exposições, que contou com nomes bem conhecidos, em uma área com capacidade para 15.000 pessoas. Também tocamos em diversas cidades de MG, ES, SP e RJ, em casas que são ou já foram muito conceituadas no país, como Garage e o Caverna (RJ). Dividimos o palco com grandes nomes do cenário nacional. Cada evento que participamos, é sempre uma expectativa diferente, de forma que todos eles têm sua importância para a história da banda e acreditamos que todo evento realizado, seja ele de pequeno ou grande porte tem a mesma importância para o underground.
Sheila: Já tocamos em alguns eventos de grande porte dentro e fora de nossa cidade. Pra nós é sempre muito phoda poder tocar, seja qual for o show, pois sabemos a dificuldade que é para se realizar tais eventos.
 
9 - Como todos já sabemos, o Sepulcro possui uma mulher no seu line-up. Vocês acham que a cena metal está se expandindo e quebrando preconceitos? Como vocês vêem a constante aceitação de mulheres em bandas extremas como Ocultan, Agaures e Infernal Kingdom entre outras?
Sheila: As mulheres sempre tiveram sua participação na cena metal, a exemplo disso, temos a Valhala, uma antiga banda que está aí fazendo um brutal death metal. É verdade que a alguns anos o preconceito contra mulheres na cena era bem maior, mas estamos tendo algumas bandas de projeção nacional, que possuem integrantes mulheres, o que talvez contribua de exemplo para outras entrarem na batalha. Acho que o movimento é feito por "pessoas" que tenham o metal correndo em suas veias, seja essa pessoa homem ou mulher. Felizmente, temos tido exemplos disso.
Marcelo: A cena antigamente era muito preconceituosa no que se tratava à mulheres participando de bandas, mas já tiveram bandas como o grande Bolt Thrower, com a Joe no baixo, e aqui no Brasil grandes exemplos como Vera Figueiredo e Volkana, que tivemos oportunidade de dividir o palco no RJ. Não só agora o Sepulcro teve uma mulher em seu line-up, como na época em que o "radicalismo tosco" predominava, coincidentemente tivemos outra Sheila tocando baixo, e nunca tivemos problemas. Hoje acho muito legal vendo este lado do radicalismo sendo superado, e as mulheres mandando ver.
 
10 - Obrigado pela entrevista e gostaria que vocês deixassem um recado para os headbangers de Minas Gerais e do resto do Brasil.
Sheila: Agradecemos a você, Yuri, pelo apoio dado à banda e à toda galera que sempre nos deu força, comparecendo aos nossos shows e à todos os bangers brasileiros, continuem firmes.
Marcelo: Acho que os zines sempre foram e serão o coração do Underground, pois é a única real ferramenta de divulgação do mesmo, portanto meus sinceros agradecimentos pelo real apoio à esta luta, e também a todos que respeitam, compartilham e apoiam o Underground Nacional, o mais fudido do planeta.

voltar